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RP_logo_horizontal_onlineHá um ano atrás morreu a primeira mulher ambientalista barrosense: Celi Moura de Souza Dias.

Nada mais digno do que lhe fazer uma homenagem no dia mundial contra a incineração, no dia oito de novembro.

Minha querida amiga de luta,

Já faz quase um ano que você se foi de corpo, para mim você continua muito espiritualmente presente, a cada dia que damos continuidade à nossa luta pacífica contra  a incineração de resíduos em Barroso, no Brasil e no resto do mundo. A ODESC completou em setembro dez anos de existência e, em april de 2014 vamos completar dez anos de luta contra  a incineração de resíduos em cimenteiras. Quem poderia imaginar, querida amiga, que nesta luta de Davi e Golias, passaríamos por tantos sofrimentos e sacrifícios ?

Há quase dez anos o Ministério Público Federal e Estadual não sabem lidar com a nossa causa. Os sofrimentos e sacrifícios vão se acumulando de tal forma que, a cada dia que passa, o Ministério Público parece viver num estado de panela de pressão.  Por vivermos num país democrático e exigirmos o estado de direito, concernente aos direitos democráticos, a pressão dentro da panela tende a se tornar insuportável !

Pois é, minha querida amiga de luta, desta forma, coloco em prática a dez mil quilômetros de distância, o que prometi a você em agosto de 2012, três mêses antes de sua morte: dar continuidade à luta ! Não se preocupe, um dia conseguiremos um estado histórico diferente. Todos os nossos protestos contra a incineração de resíduos na cimenteira Holcim S.A. NÃO serão em vão.

Em quantos deles você foi a principal liderança ! Abaixo-assinados contra a incineração de resíduos, protesto com panela e colher de pau no portão da Holcim S.A., protestos com máscaras, confecção de faixas contra a Holcim S.A., descorberta em altas horas da madrugada de tráfego de lixo químico duvidoso, autora de várias reclamações de mau cheiro e mal estar advindos da Holcim S.A., reuniões com mulheres com câncer de mama

Pouco antes de sua morte, como uma insulta,  a Holcim S.A. anuncia o início das obras de expansão. Para quem conhece bem as práticas desta multinacional no Brasil e no mundo, isto não deveria surpreender. Mas o certo é sempre se deixar surpreender pelo o injusto, o incorreto. Mas, o mais bonito, é se deixar surpreender por um milagre de Deus, como disse o Papa Francisco, no  Rio de Janeiro.

E, o milagre? Um grave erro da Holcim S.A. ! No relatório de impacto ambiental (RIMA), documento exigido para se conseguir a licença de instalação e operação do novo forno, em nenhum momento é analisado o impacto do aumento de resíduos perigosos que vão ser transportados para Barroso, preparados na Resotec e, incinerados nos fornos de cimento. Enfim, NADA sobre a incineração, porque ? Ficou claro, em todos estes anos de luta que a incineração de resíduos perigosos emite dioxinas, furanos, metais pesados perigosos, altamente nocivos à saúde e ao meio ambiente. As pesquisas científicas a respeito das dioxinas, etc, a cada ano trás mais novidades. Uma das últimas novidades é que a escória e o SPL são lixos químicos altamente contaminados com dioxinas. Outros estudos recentes comprovam que há um aumento de cânceres em até cinco quilometros entorno de uma fábrica de incineração. As dioxinas passadas de mãe para filho através do leite materno, causam efeitos negativos nas funções cerebrais e pulmonares, além de disrupções endócrinas até à puberdade *.

Sabemos, com certeza absoluta, que um forno de cimento NÃO é feito para incinerar lixo. Ele não é capaz de destruir dioxinas, furanos e metais pesados perigosos. Porque então, a FEAM (Supram) e a consultoria Sete Soluções não avaliaram tais pontos tão críticos ? A própria Sete Soluções pediu o meu relatório Holcim S.A. brincando de Deus para consultar.

Porque os representantes do poder local continuam surdos, mudos e cegos frente aos perigos da incineração nos fornos de cimento da Holcim S.A., apesar de a ODESC sempre lhes ter informado de tais riscos ?

Porque eles são tão incapazes de reconhecer que um novo espírito da época (Zeitgeist) está nascendo e, que ele vai lhes passar as pernas?

 

 

por Valéria Nacif – Coordenadora Geral da ODESC

Tilburg, Países Baixos, 8 de novembro de 2013

 

 

 

 

*Mother-baby Cohort Studies in environment and health research.
“A long-term follow-up study to health effects of prenatal and lactational exposure to background levels of dioxins in the Netherlands 1987-2005”.  Autores:  Janna G. Koppe, Marike M. Leijs, Gavin W. ten Tusscher, Kees Olie, Wim M.C. van Aalderen, Pim de Voogt, Thomas Vulsma1,Greet Schoeters, Juliette Legler.

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